Hollywood: o mundo não quer apenas diversão pipoca

Cresce o espaço para falar sobre minorias na indústria cinematográfica e não estou falando de filme cult

Você já deve ter escutado a famosa frase “a arte imita a vida”. E imita mesmo. É justamente o que alguns diretores de cinema estão fazendo, acrescentando debates relevantes às suas obras. Aí você me pergunta, mas isso não seria uma pegada normalmente adotada por um cinema mais conhecido como cult?

– Não. E digo mais, os temas voltados para questões sociais estão cada vez mais presentes em Hollywood.

Mas isso não é de hoje, definitivamente…

Apesar desse movimento parecer recente, o debate sobre questões de raça, gênero, classes sociais e temas em geral sobre minorias sempre estiveram na espreita da indústria do cinema, esperando apenas uma oportunidade para entrar na pauta.

Hollywood é um dos primeiros exemplos disso. Lá pelos anos 1910, bem nos primórdios, o descampado em Los Angeles atraía diretores estrangeiros, normalmente que não haviam encontrado espaço para figurar na indústria europeia, principais pólos antes da ascensão dos estúdios Hollywoodianos.

Para falar a verdade, Hollywood sempre foi uma espécie de reflexo simplificado dos eventos políticos dos Estados Unidos. O estabelecimento da primazia norte americana é um dado da realidade. Com isso, tudo o que acontece lá ecoa no resto do mundo. Com a indústria de cinema é a mesma coisa. Exemplo disso é que o Oscar faz parte de uma das principais premiações do mundo. Quem nunca ouviu falar? Nem precisa ser cinéfilo.

Barry Jankins, o diretor negro que foi aclamado em Hollywood

Em seu segundo longa metragem, Jankins já caiu nas graças do Academy Awards, levando para casa o Oscar de melhor filme por sua obra Moonlight: Sob a luz do luar. Em 2018, lançou Se a rua Beale falasse (em cartaz nos cinemas de todo o Brasil). O filme já possui três indicações ao Oscar e faz questionamentos tão incisivos sobre minorias quanto em Moonlight.

O diretor já disse a que veio. Aponta os perigos de simplificar ou naturalizar problemas como homofobia, bullying, racismo, desigualdades de gênero e sociais. Ele mostra, como nenhum outro (minha opinião), a complexidade de ser um negro, pobre e gay no mundo de hoje… e no mundo de ontem também.

Sua abordagem viaja pela história recente dos Estados Unidos e nos mostra que lembrar a história elucida e desnaturaliza absurdos contemporâneos. Jankins levanta questões como o que um jovem negro e gay da periferia pode esperar do futuro e como o ambiente de pobreza e vulnerabilidade apresenta opções ou “oportunidades” para esses personagens de histórias que nem sempre são ficção. Sua obra funciona como um instrumento de representação dessas realidades. Tema elevado a décima potência no trabalho poético que desenvolve em Moonlight.

Se você se interessa pela história recente dos Estados Unidos, Se a rua Beale falasse faz um recorte interessante. O filme traz uma abordagem política sob o ponto de vista de uma família negra do Harley em pleno período da luta dos negros pela conquista dos direitos civis. História de ontem que traz um debate fundamental para os dias de hoje.

Nas duas obras que citei, Jankins trabalha com personagens predominantemente negros. Põe o dedo na ferida do preconceito que tem a péssima mania de simplificar problemas complexos e chamam atenção para a coisa. Ele faz isso lindamente.

Berry Jankins é o nome de um diretor inconformado com sua própria história e que sabe tratar de maneira profunda as questões que o faz questionar o mundo. Coloca em debate questões sobre consciência social e como a condição humana forma nosso caráter a partir dos caminhos que se apresentam diante de nós.

Ele sabe como dizer “O buraco é mais embaixo”.

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