Aonde foi parar a história do negro no Brasil?

“A história do Brasil é uma história escrita por mãos brancas” Beatriz Nascimento (1942-1995)Cópia de 500px × 200px – Design sem nome (1).png

O ambiente não poderia ser mais repressivo. Entre 1964 e 1985, o regime militar deixou sua marca sangrenta no Brasil. Havia ditadura, racismo, machismo e outras injustiças acontecendo em nosso país. Apesar de controverso, este era o cenário perfeito para que uma jovem mulher, negra, acadêmica e intelectual explorasse suas ideias contrárias às repressões de seu tempo (e do nosso ainda hoje).

A história de sempre

O ativismo foi a arma que Beatriz Nascimento usou para combater o preconceito, a discriminação racial e para abalar a estrutura sob a qual a história do negro é narrada no Brasil.

Por um lado, como ela mesmo disse, haviam mãos brancas escrevendo a história do povo negro. Por outro, o negro era objeto da “historinha” de sempre: a história do escravo.Como se a história do negro no Brasil fosse apenas a história da escravidão.

Ou te contaram alguma outra história durante sua formação? Te desafio a pensar a história do povo negro além do aspecto simples do negro escravo.

Beatriz tem razão em sua crítica. Ainda hoje, não me lembro de ter aprendido algo em meus estudos formais diferente disso. Também sou mulher, mas sou branca e me senti constrangida por nunca ter me atentado para isso: a história do negro brasileiro se resume a história da escravidão. Não, ela não se resume! Mas aceitamos isso de forma natural. Por quê aceitamos? Me pergunto com a angústia da incompreensão.

Honestamente, gostaria de percebido isso por mim mesma. Ao mesmo tempo, agradeço a Beatriz por ter trazido a luz sua abordagem para que pudesse finalmente refletir e compartilhar.

Beatriz não nega a importância do estudo sobre a escravidão, mas enquanto intelectual ela nos provoca a ir além da mesmice. Ela nos propõe refletir sobre a sociedade formadas pelo negro. Sua maneira de habitar, de se organizar em comunidade, sua cultura, seu “jeitão”.

Pensando nisso, Nascimento escolheu como tema da monografia de sua pós-graduação “Sistemas alternativos organizados pelos negros: dos quilombos às favelas”. Para ela, a democracia racial que habitava o discurso oficial não passava de um mito. Afinal, como poderia existir democracia sem que os representantes daquele lugar de fala pudessem refletir por si? Ou falar por si? Os negros não estavam contando sua própria história.

Para dar um exemplo bem simples, lembro-me de que quando era garota se eu fizesse algo que destoasse do comportamento padrão na escola, ao chegar em casa, eu imediatamente comunicava os meus pais sobre o que tinha acontecido. Assim eles escutariam a minha versão da história, minhas motivações, minhas justificativas, minhas angústias e medos. Eles me compreenderiam. Isso costumava funcionar. Minha honestidade rendia penalidades mais brandas. Por outro lado, quando a notícia não chegava por mim, minhas chances de defesa reduziam praticamente a zero. Raramente eu tinha espaço para falar e precisava enfrentar penalidades mais severas.

Escravo livre?

Penso que o que Beatriz está nos propondo é que ouçamos a voz do povo negro sem reservas para que não atribuamos a eles e a elas um julgamento fabricado por aqueles não sabem ao certo suas angústias, seus medos e também suas alegrias e experiências de liberdade.

Para ela, o escravo também sabia ser livre. E o era na dança, na roda de capoeira, no candomblé.

Questão mal resolvida

Ainda hoje, a preocupação em zelar pela a “objetividade histórica” nos leva a manter certa cautela e distância entre o objeto de pesquisa e o pesquisador. Esse distanciamento já alvo de muitas críticas, uma vez que a academia tem avançado em estudos que levam em consideração o lugar de fala, principalmente, do negro, da mulher e da mulher negra.

Esse avanço acerca da crítica da objetividade também é herança de Beatriz Nascimento. Seus questionamentos se converteram em grupos de estudo. O primeiro deles foi o Grupo de Trabalho André Rebouças, na Universidade Federal Fluminense (UFF). Lá, atuou como orientadora de estudantes negros de diversos cursos, com a finalidade de ampliar a produção de conhecimento sobre o negro no Brasil.

Sua contribuição deixou um legado para as próximas gerações. Hoje, é possível perceber maior presença do homem e da mulher negra nas organizações, de um modo geral. Ainda são a minoria nos locais de visibilidade social e maioria entre os que morrem por causa da pobreza e da violência, no Brasil.

É inegável que há ainda um longo caminho a percorrer, mas uma personalidade como Beatriz e tantas outras depois dela pavimentaram essa estrada que apresenta sinais de evolução.

A vida de Beatriz Nascimento chegou ao fim de forma trágica: morreu assassinada em 1995, ao defender uma amiga que tinha um companheiro violento. Naquelemomento de sua vida, ela cursava o mestrado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Como um simples canalha mata uma rainha?”, lamentou Alex Rattis em sua obra “Eu sou atlântica – sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento”.

Assista o vídeo e assine nosso canal:

Um comentário sobre “Aonde foi parar a história do negro no Brasil?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s