Um destino chamado passado

Um diálogo sobre como voltar no tempo

Karla Nayra

E se, em uma estação de trem, o único destino fosse o passado? Quem seriam esses passageiros? O que buscam nos distintos períodos da história?

Siegfried Kracauer (1889 – 1966) foi um desses viajantes no tempo. Suas inúmeras jornadas o permitiu elaborar reflexões sobre o papel do historiador no tempo presente e suas representações sobre o passado. Um dos pontos mais interessantes dessa vigem é observar o momento em que os passageiros se encontram e colocam suas distintas formas de enxergar as paisagens dessa viagem. Sim, há conflito de ideias e essa é a parte mais instigante.

Benedetto Croce e Robin G. Collingwood estão sentados no primeiro vagão lado a lado. Eles concordam que o interesse no tempo presente é o propulsor que move o historiador em busca do passado. Durante essa busca, é necessário que haja uma pergunta ou hipótese a ser respondida. Para eles, essa viagem precisa ter um sentido pré-estabelecido, algo como um roteiro ou guia turístico.

Collingwood diz a Croce: “o presente é o resultado de uma série de fatos passados e, portanto, o presente contém virtualmente o momento que os precederam”. Essa afirmação implica dizer que um historiador é como filho de seu tempo que reencarna ao passado a partir da sua reimersão nos problemas do presente.

A busca por responder uma determinada questão faz com que Croce e Collingwood obtenham da história respostas balizadas por algo que Kracauer chama de palpites ou hipóteses. Kracauer critica essa visão. Para ele, essa abordagem trata a história como um experimento científico que lhes força a responder suas perguntas ora determinadas.

Ele aponta que os defeitos nas teses de Croce e Collingwood é justamente o descanso sobre a insustentável premissa segundo a qual o fluxo do tempo cronológico é o portador de toda história. Assim, entra em conflito com um amplo conjunto de experiências concernentes a estrutura desse período.

Kracauer refuta os argumentos de Croce e Collingwood, declarando que o historiador não é como um simples filho de seu tempo. Seu ponto de vista poderia ser definido a partir das mais diversas influências contemporâneas. E sua concepção de passado não é necessariamente a expressão de um interesse pelo pensamento do presente, mas ele se for, essa agressividade poderia levar o passado a se afastar dele.

Tomo a liberdade de entrar neste trem e me intrometer nessa conversa.  Começo perguntando: se levamos questões previamente feitas do tempo presente para uma viagem ao passado, seria essa uma experiência livre? Acredito que sim, uma “hipótese ou palpite” podem limitar a investigação. Nesse caso, os viajantes não se perdem e vão direto ao destino planejado. Mas será que isso é bom?

O que Maculay tem a nos dizer?

Quando Thomas Maculay compara a história a uma viagem ao exterior, ele afirma que o historiador desce e vai aos pontos que precisam ser vistos nas mesmas proporções que os turistas comuns. Uma vez que estão convencidos de que o Parthenon é um local emblemático, passam a registar e tirar fotos das colunas antigas. Após explorar o ponto turístico, já se pode regressar a casa e assim se dão por contentes.

O princípio de se preparar uma questão prévia sugerido por Collingwood e Croce podem representar as colunas do Parthenon para um historiador, o viajante do passado. No afã de encontrar apenas aquela resposta, assim que a encontra o historiador já pode voltar ao presente, deixando de explorar os pontos que não foram questionados por ele e muitas vezes deixando de olhar em volta, de aumentar seu repertorio de elementos para responder melhor ainda a sua pergunta.

Mas se uma hipótese ou pergunta prévia pode limitar os caminhos dessa viagem, como evitar o embarque em uma jornada sem destino? Kracauer defende que a mente de um historiador é capaz de mover-se com liberdade e a medida em que o historiador faz uso de sua liberdade ele pode ficar face a face com o passado, mas será que isso realmente é possível?

Ocorre que, em nosso cotidiano como pesquisadores, ao elaborar um projeto de pesquisa estamos balizados por esse formato criticado por Kracauer. As rédeas metodológicas nos obrigam a ter uma pergunta, uma hipótese, um palpite. Chamamos isso de problema de pesquisa. Assim, quando Collingwood e Croce estão sendo criticados o nosso modelo de fazer pesquisa também está, afinal de contas, quem nunca ouviu a frase: “esse tema é muito amplo”. Há uma razão para isso. O tempo é escasso e não se pode divagar sobre algo indefinidamente, por isso há prazos e métodos, mas até que ponto eles não nos limitam?

É um grande dilema e também um grande desafio. Por um lado, é quase impossível não se render a uma hipótese ou um palpite para nortear uma pesquisa. Por outro, é fundamental que o pesquisador tenha em mente que está sendo conduzido pelas balizas metodológicas, mas que não se limite a sua própria pergunta e busque a liberdade criativa de cultivar questões que transcendem àquela única e exclusiva questão.

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